Salvem a floresta — essa história é velha

Quando pautas políticas são importantes apenas quando convenientes

Oi. Ricardo por aqui.

Passo pela sua caixa de e-mail neste sábado apenas para destacar que realizamos, na última quinta-feira, a maior live de nossa história. O assunto é quente: Bruce, Renato e eu discutimos sobre o destino das Ações da Oi — que têm, nas últimas semanas, rendido fortes emoções no vai e vem da Bolsa.

Se você não teve, ainda, a oportunidade de assistir, não perca: confira aqui.

“Salvem a floresta” — essa história é velha

“Save the rainforest: kill Brazilians” — essa era uma das frases populares no final do século XX sobre o debate político internacional em relação à preservação da Amazônia.

A resposta da elite política, desde os militares até a esquerda, era unânime: estão querendo ferir nossa soberania nacional!

Construída sobre a base de um imaginário catastrófico, a emergência da temática ambiental a partir dos anos 60 e 70 levou para o debate internacional narrativas sobre o futuro que expressam, geralmente, disputas ideológicas travestidas de fatos científicos.

Os ambientalistas acusam o capitalismo de usurpar os recursos naturais e promover, por meio das grandes corporações, um modo de produção industrial que nos levará ao colapso.  Por outro lado, os céticos acusam o ambientalismo de alarmista — e uma minoria chega até mesmo a acusar de fraude e pseudociência as previsões apresentadas.

Para o primeiro grupo, o impacto produzido pela ação humana consiste na única variável para explicar fenômenos socioambientais. A solução se resume à  mobilização de uma “revolução ideológica global na relação entre sociedade e natureza”. Por outro lado, o segundo grupo tende a minimizar as presepadasambientais da História e, principalmente, abre mão da discussão ética sobre a responsabilidade pelos danos ambientais.

Entretanto, independente da nossa posição política (radical, moderado ou cético), os impactos — diante um “problema ambiental” que chama atenção da mídia e da comunidade internacional — são, geralmente, indesejáveis.

A partir dessa lógica, independente de você ter ou não “apreço” pela causa ambiental, as consequências podem chegar até você.

Não se trata de se basear em algum cenário catastrófico futuro que mobilize políticas públicas, apelo midiático ou emoções em torno da agenda ambiental contemporânea, mas sim de analisar factualmente que, independente de quem está certo, uma “crise internacional” entre Brasil e “países mais fortes que o Brasil” foi criada.  

E é sempre bom ter em mente em quais brigas vale a pena entrar e quais adversários temos condições de enfrentar. E, independente das convicções da política doméstica, vivemos em um mundo globalizado e com agendas internacionalizadas.

Portanto, se queremos um Brasil capitalista, produtivo e mais aberto, não é efetivo fechar olhos e ouvidos para as demandas políticas e morais do mercado e da política global.

A partir dessa perspectiva, representantes do agronegócio — que sabem muito bem onde o calo aperta — estão preocupados com possíveis barreiras internacionais às exportações brasileiras.

Parte da resposta do Governo foi prudente: a possibilidade de resistência aos produtos brasileiros obrigou o núcleo bolsonarista a rever o grau de prioridade da resposta às queimadas. Bolsonaro já falou, inclusive, sobre a atuação das Forças Armadas na região. Países vizinhos também estão dispostos a colaborar.

Porém, o medo de perder autoridade sobre a floresta amazônica também motivou acusações de conspiração e declarações acuadas sobre “interesses internacionais escusos”.

“[Países desenvolvidos] querem estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil” — disse Onyx. Essa declaração me lembra as clássicas “Cuba só não deu certo por causa do embargo econômico” e “A situação da Venezuela é culpa do imperialismo americano”.

O contexto fica mais confuso quando as notícias em torno da pauta misturam, ainda, queimadas com desmatamento. Queimadas são fenômenos que acontecem em períodos de seca, enquanto desmatamento é um processo de impacto ambiental que não está restrito ao Governo Bolsonaro.

Muito pelo contrário: o ano de 2014 — durante o Governo Dilma Rousseff, portanto — foi considerado o pior da História brasileira recente para o meio ambiente. Faço questão, inclusive, de lembrar das alterações no Código Florestal, da redução de Unidades de Conservação, da redução do poder de fiscalização do Ibama, do aumento da violência no campo, da total perda de protagonismo do Ministério do Meio Ambiente e do início da construção da Usina de Belo Monte, em Altamira —  cidade que, segundo a então Presidente e candidata à reeleição, “fica longe de quase tudo”.

Lula também não está isento desse processo de “negligência com o meio ambiente”. Vamos lembrar sobre a saída de Marina Silva do PT, em 2009, precisamente por conta dos rumos do partido em relação a pauta. A pressão pela aprovação dos licenciamentos do Programa de Desenvolvimento Econômico (PAC) e a reconfiguração das alianças do PT pós-Mensalão — que passou a se articular com a bancada do agronegócio, por exemplo.

Eu era uma estudante de graduação atenta a todos esses fatos. E está claro na minha memória o silêncio desse tipo de militante que, quando convém, decide desenhar girafas no corpo e postar #prayforamazonia.

Todavia, mesmo que a hipocrisia seja infinitamente maior que a própria floresta, a inteligência política do Governo é imprescindível. As decisões e suas consequências estão, inevitavelmente, articuladas. Insistir na resposta “anticolonialista” pode, ainda, melar os acordos comerciais entre Mercosul e UE. Mesmo que dados da NASA apontem que as queimadas estão abaixo da média histórica.

Jogo de xadrez

A partir da lógica de compreender que a decisão sobre uma pauta X pode ter impacto sobre uma pauta Y, o relator da Reforma da Previdência no Senado, Tasso Jereissati (PSDB) afirmou que a indicação de Eduardo Bolsonaro a embaixador tende a prejudicar os trâmites da Reforma entre os Senadores.

O Presidente, por sua vez, não arreda o pé sobre a indicação do filho.

Semana passada escrevi sobre o jogo de xadrez que se desenha na expectativa do veto presidencial em relação ao projeto de abuso de poder, aprovado amplamente e sem transparência  pelo Congresso. Raquel Dodge disse ao Presidente, em reunião, que a nova lei pode enfraquecer as instituições do sistema de Justiça.

Ela está correta. Porém, na Política, a melhor estratégia não é, infelizmente, decidir sobre o mais correto, mas sim tentar ao máximo minimizar perdas e maximizar ganhos, sempre com foco nas disputas e interesses futuros.

A previsão é que o Presidente vetará, sim, alguns pontos. Só ainda não sabemos quais. Assim como também não sabemos a reação do Congresso diante desse resultado de copo meio cheio/meio vazio.

Infelizmente achei que esta newsletter só teria notícias boas diante do novo pacote de privatização do Governo — que, a despeito da redução da lista,  inclui os odiados Correios. Não obstante, temos que lembrar que o caminho será longo até construir uma base forte o bastante para enfrentar os interesses do funcionalismo.  

Enquanto isso, o Governo estava esperando a manifestação do STF sobre ter subsídio legal para reduzir salários de servidores nos Municípios e Estados. A decisão do Judiciário, porém, não foi a favor da demanda do Executivo.

“A verdade é que os fatos são teimosos” disse Raymundo Faoro em sua coluna sobre a hiperinflação nos anos 80. Enquanto isso, a equipe econômica continua tentando se virar para fechar as contas: o TCU deu 10 dias para o Ministério da Economia apontar fonte para o pagamento do bônus aos auditores fiscais.  Guedes chegou a defender a criação de um novo imposto. A reação generalizada na internet foi extremamente crítica a declaração.

O Ministro, muito inteligente, mostrou ter aprendido com o primeiro semestre de mandato e rebateu: “quem aprova é o Congresso”.

Ou será que é responsabilidade do Legislativo apenas quando convém?


Marize Schons









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Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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